Missionários que se perdem

 

Deus remete para os mundos os filhos que precisam crescer, evoluir, aprender. Em nosso planeta, nossa Terra, todos estamos nessa condição. Aqueles Espíritos que nos chegam na condição de filhos, aqueles que estão sob nossos cuidados afetivos, intelectuais, esperam de nós um bom norte, uma boa orientação.

 

É dever de todos nós, diante das nossas crianças, dos nossos filhos, protegê-los, cuidá-los bem, norteá-los para os caminhos que eles precisarão seguir. Enfim, cabe aos pais, principalmente aos pais, aos professores, aos mestres, esse conduzimento das novas gerações.

 

Particularmente os nossos filhos porque eles representam uma cota bastante considerável da evolução do mundo em que estamos. Muitas coisas que estamos esperando que aconteçam no planeta, em termos de liderança, de ética vivencial, em termos de política, de administração, de boa qualidade, tudo isso admitimos que estejam nas mãos dos nossos filhos, daqueles que temos agora o dever de bem conduzir.

 

O que vem acontecendo, quase sempre, nas estruturas do mundo, é uma interpretação equivocada de como deve ser o nosso relacionamento com os nossos filhos. Muitas vezes, os enchemos de proteção. Protegemos de tal forma os filhos que eles ficam incapazes, não sabem dar um passo por si mesmos, não sabem dizer nada sem olhar para nós e pedir permissão com o olhar.

 

Tornam-se criaturas completamente verdes, flores de estufa, na grande construção da vida. Certamente sofrerão. Quantas são as vezes em que os enchemos de dinheiro. Para nossos filhos não falta nada, não falta coisa alguma. Não faltam as coisas.

 

É importantíssimo que percebamos se isto é o devido, se deveríamos encher os nossos filhos de recursos pecuniários, de mesadas, de dinheiro para que eles aprendam a ganhar sem fazer qualquer esforço, aprendam a ter coisas que outros trabalharam por eles. Para eles, na medida em que o tempo passe, a vida terá que ser assim: Alguém trabalha para mim, eu usufruo.

 

Começaremos a criar os nossos filhos com essa mentalidade de que eles só exigem, só querem. Apenas cobram e os pais, na condição de Banco Central, de Caixa Econômica, de burra, de recursos amoedados. Mas não foram nossos filhos que se fizeram assim. Nós os estamos acomodando a esse status quo.

 

Outras vezes, enchemos nossos filhos de coisas, de bugigangas, damos-lhes os carros que eles querem, as motos que eles querem, as roupas que eles querem, as marcas que eles querem e, para isso, nos desdobramos trabalhando, fazendo extra, tendo que tirar de algum lugar para locupletar a vontade dos filhos.

 

É natural que eles se tornarão pessoas consumistas. Não poderão ver um Shopping Center, não poderão ver uma loja. Embora tendo, eles querem o novo, o da moda, o de agora. E estaremos vivendo o tempo inteiro para suprir a essas pretensas necessidades. Mergulharemos nossos filhos nesse rio do supérfluo e depois reclamaremos de que a juventude varada de piercings, marcada de tattoos, de cabelos multicoloridos, de correntes, disso, daquilo, é a geração perdida.

 

Como queremos que essa geração se ache, se nós não lhes estamos apresentando os caminhos? Cabe-nos, portanto, ter um pouco mais de cuidado com a maneira pela qual estamos conduzindo nossos filhos. Aquela velha história: Vou dar ao meu filho tudo o que eu não tive, muitas vezes, é covarde.

 

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Enquanto levamos  nossos filhos para esses excessos de superficialidades, de  consumo e outros tantos, costumeiramente, não lhes falamos de Deus. Temos muita dificuldade de mostrar aos nossos filhos que eles são Espíritos, que estão na Terra cumprindo uma missão, a missão da própria evolução, do próprio progresso.

 

Dizer isso à criança numa linguagem palatável, numa conversa tranquila, sem rebuscar, sem palavreados complexos. Mostrar isso aos nossos filhos para que eles aprendam a ter responsabilidades com a sua vida, desde o cuidado com os seus brinquedos, com sua roupinha, até mais tarde, o cuidado com as pessoas, consigo, com as relações, com a crença.

 

Não será nenhum pecado, nenhum crime que os pais presenteiem aos seus filhos com alguma coisa da moda, mas não podem se tornar reféns da moda de que os filhos gostam. Nenhum problema haverá se os pais delegarem uma mesada para que os filhos gastem na merenda da escola, numa brincadeira qualquer, mas não deverão tornar-se reféns desse tipo de consumo.

 

Temos que aprender a lidar com os nossos filhos admitindo que estamos diante de missionários que vieram para a Terra para realizar um trabalho e, muitas vezes, porque os direcionamos mal, esses missionários se perdem, erram o caminho. Quantas e quantas vezes fazemos com os nossos filhos como na brincadeira das cabras-cegas. Vendamos-lhes os olhos para a realidade do mundo, rodopiamos nossos filhos em torno das quinquilharias da Terra e os soltamos. E eles se acharão completamente tontos. A tendência será errar o caminho, a tendência será cair, perder-se.

 

Imaginemos, quando criança, se a mãe de Mohandas Gandhi imaginaria o que seria seu filho mais tarde. Imaginemos se, algum dia, a mãe de Madame Curie, a notável Maria Sklodowska, a grande descobridora da radioatividade, se essa mãe imaginava quem era o ser que ela estava conduzindo nos braços.

 

Pensamos em Albert Einstein, pensamos em Lincoln. Quando foi que aquela mulher simples, mãe de Lincoln, imaginou que seu filho seria o Pai da democracia dos Estados Unidos! Imaginemos Dona Maria João de Deus, a mãe de Chico Xavier, ao embalar seu filho, se ela tinha noção de que seria o maior médium do século XX.

 

Nunca sabemos quem são os nossos filhos. Não foi por outra razão que Jesus Cristo, ao conversar com Nicodemos, de acordo com o Evangelho de São João, lhe disse: O Espírito sopra onde quer, não sabemos de onde vem nem para onde vai, de que realidades experienciais ele vem, para que realidades experienciais ele vai. Por causa disso, vale a pena termos cuidado com o tipo de norte que estamos dando aos nossos filhos. Amá-los, quere-los, atendê-los nas necessidades, numa que noutra das suas buscas e gostos, mas não nos tornando jamais reféns do mal. O mundo está repleto de más inspirações mas deveremos nos vincular àquela inspiração que nos chega das estrelas porque nos nossos braços, sob nossos cuidados pater-maternais, podem estar os gênios do amor, das ciências, da política, das relações sociais, da diplomacia, que renovarão a face do mundo.

 

Muitos desses missionários se perdem, ao chegarem na Terra e serem absorvidos pelo egoísmo familiar, pelos descuidos familiares. Imaginando que seus filhos sejam seus pertences, são muitos os pais, são muitas as mães que os criam como se os fossem colocar numa redoma e venerá-los para sempre aos seus pés. Nossos filhos são aves que devem voar, singrar altos céus, missionários que todos eles são, em nível alto, em nível mais simples e para isto devemos cooperar.


Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 184, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.
Programa gravado em janeiro de 2009.
Exibido pela NET, Canal 20, Curitiba, no dia 04.04.2010.

Em 07.06.2010.

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