Disciplina


Costumeiramente, nós entendemos como disciplina, a disciplina forçada, por exemplo, dos quartéis. Os soldados precisam ter disciplina para ouvirem a voz de comando e acatarem-na. Sem essa disciplina militar, o militarismo seria um verdadeiro caos. Há disciplinas reguladas pela Legislação. Os juízes disciplinam determinada matéria, os legisladores disciplinam determinada matéria. Essa disciplina é o norteamento que se dá a determinadas situações para que essas situações ocorram dentro dos padrões palatáveis, aceitáveis e que todos os cidadãos tenham possibilidade de vivenciá-las.

Quando nos referimos à disciplina, então, estamos tratando de regras, de regramentos e, dentro desses regramentos, vale a pena contarmos com o bom senso. Quando dizemos a respeito da disciplina militar, querendo ou não, desejando ou não, os militares têm que cumpri-la, precisam cumpri-la para que as coisas funcionem como devem funcionar na caserna.

Mas, quando falamos em disciplina na vida, as coisas mudam um pouco de tom. A disciplina que precisamos alcançar, desenvolver, ao longo de nossa vida, deve ser chancelada pelo bom senso, pela lucidez. No Evangelho segundo o Espiritismo aprendemos que a obediência é o consentimento da razão. Todas as vezes em que raciocinamos e verificamos que é importante tal procedimento, tal comportamento, para o bem-estar nosso ou geral, não há porque não fazer.

Não importa de onde tenha vindo, não importa quem nos tenha dado essa sugestão, o que importa é que tenha coerência com a razão, tenha sentido lógico para que possamos obedecer. Então, quando pensamos em disciplina, trata-se de uma obediência raciocinada, uma obediência que a razão chancelou.

Daí, é importante, por exemplo, a disciplina dos horários. É tão normal entre nós, latinos, o descumprimento de horários. Se marcamos uma solenidade, uma festa, um evento para começar na hora X, invariavelmente começará com X mais Y. De atraso Y. Sempre existirá uma justificativa. Foi o trânsito, foi o tempo, foi isso, foi aquilo, faltou tal coisa, o responsável não chegou. Não é por nada disso: é porque nós não temos o hábito de usar disciplina nas questões de horário. Caso tivéssemos, sairíamos de casa mais cedo, colocaríamos o funcionário, o  responsável mais cedo naquele lugar, trataríamos de providenciar as coisas que adredemente sabemos que costumam falhar.

Então, temos uma cultura de indisciplina no cumprimento dos horários. Se sabemos que entramos no trabalho às sete da manhã ou às oito da manhã, como é que vamos levantarmo-nos quinze minutos antes? É natural que vamos encontrar obstáculos para chegarmos no horário, na instituição profissional. Aí começamos a criar problemas porque colocamos a culpa no trânsito, no tráfego. Quando não, matamos ou adoecemos a família inteira, dizemos que passamos mal, que Fulano passou mal, que o filho, que o marido, que isso, que aquilo... Tudo para encobrir a nossa indisciplina.

Nossa indisciplina no comer Quanta gente tem problemas de saúde por causa da indisciplina no comer, porque come enquanto houver comida nos pratos, nas terrinas, nas panelas. Não come para viver, vive para comer.

Os problemas arteriais, gastrointestinais, hepáticos, cardíacos por causa dos excessos de comida, de graxas, de temperos fortes. Uma indisciplina total em que as criaturas não têm horário. Comem de tudo a qualquer hora e em quantidades absurdas, o que não deixa de ser uma indisciplina, que vai depor contra a saúde.

A indisciplina no trabalho. Como há aquelas pessoas que detestam trabalhar, há outras que trabalham enlouquecidamente, sem avaliar as condições do corpo humano e se tornam os chamados workaholic. As pessoas que trabalham excessivamente e acabam por adoecer o corpo e não usufruir das bênçãos desse veículo formidável de que nos dotou a Divindade.

*   *   *

Quando nos referimos à disciplina do trabalho, não é incentivo à preguiça naturalmente. É o incentivo ao bom senso, ao bom tom porque é importante que  trabalhemos aquilo que esteja nos limites da nossa energia, da nossa força interior, da nossa necessidade. Mas o corpo tem necessidades. Por isso, a Divindade estabeleceu uma Lei, chamada a Lei do repouso. Quando fugimos à obediência dessa Lei, nos suicidamos indiretamente, enfartamos, por excesso de trabalho, adoecemos, por excesso de trabalho e a isso se chama indisciplina.

Também costumamos vivenciar a disciplina do lazer. Vamos fazer um descanso de um fim de semana e queremos esticar esse descanso pela segunda-feira. Não podemos ver um dia imprensado entre feriados porque já utilizamos também esse dia imprensado, que já ficou consagrado nos nossos hábitos sociais como feriadão. Tudo que a gente pode fazer para espichar o lazer, a gente faz. Mas, a vida da sociedade precisa daquele dia de trabalho e nós reclamamos das condições socioeconômicas em que vivemos. Contudo, a oportunidade que temos para não trabalhar é sempre um maná muito bem-vindo, muito bem visto pela grande massa.

Temos então a indisciplina do lazer porque deitamos para dormir e não temos hora para levantar. Poucas são as pessoas que dizem: Tal hora já estou acostumado e tenho que estar de pé. Há outras que, se deixarmos, emendam e a cortina que separa o lazer da preguiça é muito tênue, é muito fina. E a preguiça será sempre a indisciplina do lazer.

Desse modo, pensamos em outro tipo de indisciplina que é a do falar. Às vezes, nos damos conta de que falamos por falar. Poderíamos ficar quietos cinco minutos, dez minutos, meditando, pensando. Mas temos o costume de falar e, com o incremento dos telefones celulares, falamos todos os momentos. Quando ninguém nos chama, chamamos alguém, para falar abobrinhas, para falar coisa nenhuma, pelo vício de falar.

Há pessoas que despautam de tal maneira ao falar que elas não têm ponto, não têm vírgula, não têm travessão. Falam por compulsão, totalmente indisciplinadas. Falam alto e gritam. A indisciplina da fala. Não importa haja alguém lendo no ambiente, assistindo a um programa, conversando suavemente, nós queremos falar e falamos e falamos.

Se vamos a um concerto ouvir um musical, temos que falar, explicar para o outro o que o outro já está vendo. Falamos por falar. É uma doença, sem dúvida, do hábito mal conduzido, indisciplinado.

É importante pensarmos na disciplina que nos ensina a levantar o braço até onde alcançamos. É uma forma disciplinar. Se quero comprar uma coisa, por que tenho que mergulhar em crediários inacabáveis, se o meu salário não dará para quitá-los? A disciplina nos leva a pensar em juntar o recurso para comprar depois ou fazer o crediário que caiba no nosso salário, sem que a família passe necessidades, sem que a família passe apertos. Isso se chama bom tom, bom senso, disciplina nos gastos.

Há famílias que ganham X e consomem dois X. Não conseguem viver jamais dentro do orçamento familiar. As despesas sempre extrapolam. É natural que, numa família comum, haja ocasiões de um acidente, uma enfermidade, que exigiu que a família se endividasse. Não como uma praxe em que  sabemos que não poderemos, mas estamos contando com a indisciplina.

Pagamos alguma coisa em trezentas vezes e pagamos essa coisa trezentas vezes, pela indisciplina de não saber esperar um período melhor para comprar, quando os preços caiam um pouco mais ou quando tenhamos melhores possibilidades econômicas.

Daí, a disciplina é uma virtude que deve nos acompanhar em todos os momentos de nossa vida. Seja o seu falar sim, sim, não, não propôs Jesus. Isso é disciplina. Dessa maneira, na medida em que dizemos o sim quando necessário e  dizemos o não, quando devido, aprendemos a usar a nossa fala, comedidamente, sem nenhuma necessidade de gritar porque não será jamais pela indisciplina que  conquistaremos a paz interior. Pelo contrário, nos ajustaremos a ela, na medida em que sejamos pessoas disciplinadas.
 
                       

 

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 167,
apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação
da Federação Espírita do Paraná.
Programa gravado em janeiro de 2009.
Exibido pela NET, Canal 20, Curitiba, no dia 21.03.2010.
Em 04.06.2010.

© Federação Espírita do Paraná - 20/11/2014