Alegria e excitação

Todos nós sabemos que vivemos num mundo de sofrimentos, de provações e de expiações, se quisermos dizer assim.

O próprio Cristo anunciou que no mundo só teríamos aflições. Logo, este é um mundo de aflições.

E por que é que o Homem de Nazaré se expressou assim?

Por causa do nível dos Espíritos que vivemos aqui. Com certeza, nós todos não somos pessoas muito fáceis, não porque sejamos más, mas porque somos ainda dotados de uma grande dose de atraso. Atraso ético, atraso moral.

Mas, a questão que queremos tratar é a respeito das nossas comemorações.

Ora, se somos Espíritos portadores dessas limitações, todas as coisas que fazemos no mundo refletem essas limitações. E as nossas comemorações não ficam por fora disso.

Retirando aquelas evocações fúnebres, as datas de guerras, as referências históricas a respeito das nossas sociedades diversas, as comemorações do mundo são pró-alegria. Comemoram-se aniversários, bodas e, desse modo, a alegria.

Se nos detivermos nesse capítulo das bodas, das festas, de comemorações alegres, festivas, nos aperceberemos o quanto nós não sabemos fazer as festas; nos aperceberemos do quanto as nossas festas são do nosso tipo: atrasadas, perturbadas.

Muito raramente alguém consegue fazer uma comemoração sem excessos:  excesso de comida, excesso de bebida alcoólica, excesso de barulho. É muito complicado.

E aí não respeitamos o fato de morarmos numa vila de casas, num edifício de apartamentos. O que queremos é festejar, egoisticamente, porque os vizinhos não tolerarão nosso barulho, os vizinhos não tolerarão nossa bulha. Mas, fazemos porque é assim que pensamos na Terra, com raras e expressivas exceções.

É muito importante que nós saibamos valorizar as comemorações felizes do mundo. Há tantas delas.

Quando comemoramos alegria, isso corresponde a louvar a Deus, a agradecer a Deus. E aqueles que não creem em Deus, a louvar os poderes superiores da vida, as capacidades superiores dos homens.

Por causa disso é que encontramos o Dia de Ação de Graças, nos Estados Unidos, o Dia do Perdão entre os judeus. Mas também achamos Valentin, o Dia do Amigo, tanto nos Estados Unidos, quanto na Europa e em alguns outros países do mundo.

São datas de festas, de comemorações, em que se come, se bebe, em que se dança, se brinca. Mas, tudo isso precisa ter a marca da verdadeira alegria. Quando fugimos da marca da verdadeira alegria, entramos na marca das excitações.

É muito comum que aqui, no mundo, nós confundamos a alegria com excitação. Sempre que se fala em alegria, tem que se falar em batuques, em folguedos, em bailados, em gritarias, em alcoólicos e, desde alguns anos, em drogas.

Fala-se do carnaval, que deveria ser uma festa de alegria popular, as drogas estão presentes.

As nossas autoridades fazem campanhas nada educativas com relação ao sexo. O indivíduo pode despautar como quiser, no capítulo da sexualidade, desde que use camisinha.

Não importa que ele seja um tarado, um desrespeitador, um inveterado consumista de sexo, desde que ele use camisinha.

Não há nenhuma preocupação ética, nenhum cuidado estético. Excitações. Muito barulho, trios elétricos, tambores muito altos.

Nada contra a música, nada contra os folguedos. Estamos falando das excitações por causa dos excessos. E quando refletimos sobre isto, certamente que as nossas alegrias acabarão por nos vitimar, provocarão acidentes morais e acidentes materiais, também.

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As consequências que nós tiramos dessa desarmonia, que acaba por acontecer nas nossas festas, é que vamos ensinando às novas gerações o nosso modelo, o nosso padrão de alegria, desde as nossas festas familiares.

Já estamos pensando como é que será o nosso aniversário. Estamos pensando como será aquela festa em casa.

É muito comum que os moços, os jovens, os adolescentes queiram até que os pais saiam de casa para que eles possam fazer suas festas.

Por que razão os pais têm que sair de casa? Por que é que os adultos não podem conviver na festa com os jovens? O que haverá de tão especial, nessas festas, onde a família não possa estar reunida? Alguma coisa inútil existe, alguma coisa negativa há.

Cabe então nós voltarmos às bases da saúde familiar, retornarmos aos fundamentos éticos da família, da vida social, porque essa barulheira que fazemos em casa, esses excessos de alcoólicos, que aprendemos a consumir em casa, o tabagismo, em nossa casa, o desrespeito à vizinhança é o que têm gerado, nessa atualidade do mundo, as famosas festas raves.

E a sociedade então começa a gritar porque os nossos jovens estão se matando ao som de músicas fortes, de sons fortes e altos, de estupefacientes, de drogas, de tropismo neurológico, de tropismo cerebral, noites e noites, dias e dias.

Mas, onde foi que essa juventude aprendeu isso? De onde essa moçada retirou esses modelos de festas?

Eles apenas apimentaram, eles tão somente incrementaram.

Fomos nós, pais, mães, sociedades, autoridades, nós é que deixamos essa herança perniciosa para que os moços, desarmonizados em si mesmos, sem objetivo na vida, sem coisa séria para trilhar os próprios pensamentos, resolvessem retomar e dar o seu toque particular.

Todas essas festas orgíacas, donde saem os nossos moços desencarnados, onde os pais vão buscar seus filhos mortos, têm origem, têm nascedouro nesse arremedo de alegria que, verdadeiramente, não passa de uma grande excitação.

E isso configura a nossa condição terrestre de Espíritos em expiação, de Espíritos em provação, criaturas que têm necessidade de aprender no capítulo das provas, mas que têm urgência em resgatar os erros antigos, no campo das expiações.

Vale a pena nós pensarmos que a saúde doméstica precisa ser retomada, a fim de que a saúde social ganhe terreno.

Se a família representa, como estabeleceu Émile Durkheim, na França do século XIX, a célula fundamental da sociedade, se uma célula está doente, toda a sociedade enferma estará.

E é por causa disso, então, que cabe à família começar a ensinar a seus filhos que comemoração por alegria é louvor a Deus, é orar, é cantar, é brincar, é partir o bolo sim, é chamar os amigos para compartilhar a mesa, mas sem fugir às bases do equilíbrio, sem descambar da ética, sem nos perdermos nesses labirintos dos excessos.

Caso contrário, a nossa festa não passará de excitação do sistema nervoso onde nós nos agitaremos, gritaremos, comeremos, beberemos e morreremos.

Hoje é o dia em que deveremos iniciar essa reflexão.

Este é o tempo em que as religiões do mundo deverão estar ocupadas com seus fiéis, com o seu rebanho e, ao invés de apenas explorar esse rebanho para o lucro que vai ficar na Terra, trabalhar essas consciências, essas mentalidades para que entendamos o que disse o nosso Mestre: Onde estiverem dois ou mais reunidos em meu nome, no meio deles Eu estarei.

Que as nossas comemorações, as nossas reuniões festivas sejam desenvolvidas em nome do Senhor e a nossa alegria então será santa.


Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 183,
apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.
Programa gravado em janeiro de 2009.
Disponível no livro Vida e Valores, v. 1, ed. FEP.
Em 22.6.2021

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