Casamento - Jacob Holzmann Netto
Sugerira o Conselho Diretor da Primeira Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Brasil abordássemos o tema Casamento e Espiritismo. Embora nos liberasse posteriormente o tema, confiando ao nosso critério a escolha da tese a explanar, julgamos de bom alvitre havermos a sugestão inicial, dispondo-nos a discorrer realmente sobre o casamento, assunto que nos pareceu oportuno, mormente se partirmos da consideração dele para uma série de outras assaz graves que se ligam a ele e interessam fundamentalmente à vida humana, à sociedade e ao próprio Espiritismo.

Definido pela autoridade inconteste de Clóvis Beviláqua como um contrato bilateral e solene, pelo qual um homem e uma mulher se unem indissoluvelmente, legalizando por ele suas relações sexuais, estabelecendo a mais estreita comunhão de vida e de interesse, e comprometendo-se a criar e educar a prole que de ambos nascer.

O casamento, do ponto de vista jurídico, é efetivamente um contrato, mas é também e, sobretudo, uma Instituição e como todos os Institutos humanos, tão perfectíveis quanto é o próprio homem, sofreu processo de morosa evolução no curso dos evos. Afirmam muitos antropologistas e etnólogos depois de McLennan e Morgan, que a evolução familial haja iniciado pela comunhão das mulheres e que o casamento, união mais ou menos permanente, mais ou menos transitória, decorra de um estado anterior de hetairismo. Mas, como aventou Darwin, dado o ciúme de todos os machos mamíferos, é extremamente improvável a comunhão das mulheres no estado de natureza e a verdade está principalmente com Spencer quando escreve: nos grupos humanos, mal unidos, não há ordem alguma estabelecida, nada é definitivo, nada é organizado, as relações entre homens e mulheres não o são mais do que as relações de homem a homem. Nos dois casos os guias únicos são as paixões do momento, sem freio algum a não ser o medo das consequências. Podemos considerar e concluir, portanto, que a característica desses primeiros momentos da evolução das relações conjugais foi a indisciplina, a irregularidade, a transitoriedade, a coexistência de modalidades diversas e o hetairismo de que se fala é uma regulamentação rigorosa, inflexível.

Assim, se por promiscuidade se entendem relações de pouca duração, polígamas ou monógamas, pode se ter, por certo, que foi essa a manifestação incongruente donde surgiram todas as formas disciplinares posteriores. Mas, se comunhão de mulheres importa direitos iguais e simultâneos, só se pode crer que ela existisse anormal e passageiramente, pois se fosse adotada como regime único ocasionaria a esterilidade, além de acarretar outras consequências danosas que implicariam dentro em pouco tempo a supressão total do grupo humano que a praticasse de maneira sistemática.

Em etapas posteriores da evolução familial, vamos surpreender a forma polígama estabelecida como regime comum e que já evidencia a ação de uma certa disciplina. Apresenta-se sob duas feições; a poliginia monândrica e a poliandria monogínica, algumas vezes poligínica, mais brevemente a poliandria e a poliginia, compreendendo-se por poliginia o estado do homem que tem várias mulheres e por poliandria o da mulher que tem vários maridos. Apesar dos muitos inconvenientes que aliciam, a poliginia monândrica é incontestavelmente superior às modalidades até aqui referidas.

Como assinala Spencer, é na poliginia que a maternidade e a paternidade começam a ser consideradas igualmente, é com ela que se estabelece uma linha direta de ascendentes e descendentes masculinos, de geração em geração obtendo assim, a família, maior coesão.

Finalmente, num estágio superior, prepondera a monogamia, que é a forma de união conjugal de mais forte coesão entre os cônjuges, a melhor organizada para garantir a manutenção da prole, a mais consentânea com a dignidade da mulher e a moral social. Em suma, como diz Taguano, a mais adequada ao estabelecimento e floração da simpatia humana.

É a monogamia que, aperfeiçoada no Direito Romano, elevada à categoria de sacramento pela Igreja e consagrada no Direito Canônico, obtêm sansão em todos os códigos modernos e constitui a forma de relações conjugais aprovada pelos costumes e amparada pelas leis da civilização contemporânea.

Sobre essa modalidade, as necessidades e interesses humanos, inquire Allan Kardec, questão nº 695 de O livro dos Espíritos:

- Será contrário à Lei da Natureza, o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?

A isso respondem os Espíritos:

É um progresso na marcha da Humanidade.

E essa resposta confirma a exposição que fizemos baseada na sociologia. E Kardec insiste, na questão nº 696:

Que efeito teria sobre a sociedade humana a abolição do casamento?

Seria uma regressão à vida dos animais. Acentuam os Espíritos, proposição que vai suscitar o seguinte comentário do Codificador; O estado de natureza é o da união livre e fortuita entre os sexos.

O casamento constitui, portanto, um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas.

A abolição do casamento representaria, pois, regredir à infância da Humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes. É que o homem, aduzimos nós, pela aquisição da autoconsciência, da razão e da imaginação, transcendeu o estado de natureza onde todas as espécies de animais inferiores se acomodam pela repetição de um modelo de existência fisiológica regulado essencialmente pelos instintos, os quais, por sua vez, são determinados por estruturas neurológicas herdadas.
Cabe, portanto, ao homem, por força dessa transcendência que desceu ao imperativo da evolução, sujeitar os instintos ao domínio da razão e disciplinar suas necessidades fisiológicas em consonância com os ideais de fraternidade, justiça e amor que lhe comandam e condicionam à destinação superior. A dignificação da mulher, por efeito da universalização da consciência cristã, o impositivo de se propiciar a boa educação da prole em decorrência do progresso moral e jurídico, a afirmação buscando neste mútuo respeito e solidariedade para a base de todo o agrupamento humano estável, recomendam o casamento monogâmico como alicerce inamovível da harmonia social.

Dizem-nos amiúde, no entanto, que o matrimônio, tal como o entendemos hoje, é Instituição em declínio e fadada à extinção. Como restabelecimento do hetairismo, ou seja, do amor livre e a plena liberdade sexual, dissolvendo-se consequentemente a família por anacronismo insustentável.

Professora de nossas relações de amizade, ao instituir numa classe de segundo ano colegial que rege na cidade de São Caetano do Sul, Estado de São Paulo, um seminário de debates a propósito do divórcio, pôde verificar que entre seus trinta e cinco alunos, com idade inferior a 18 anos, apenas um se pronunciava antidivorcista e isso ainda por motivo de imposição religiosa.

Todavia, para que a discussão se tornasse possível, dividiu então a turma em duas facções, cabendo às moças a condenação do divórcio e aos rapazes a sua defesa.

Houve surpresa geral quando um dos rapazes, em meio ao debate, declarou-se contra o divórcio. Indagada a razão de sua atitude, pois que lhe cumpria o papel da defesa, respondeu ser contra o divórcio por ser contra o casamento. Imediatamente a discussão tomou outro rumo dispondo-se espontaneamente os alunos em dois novos grupos, um a favor do casamento e outro contra, e revelando-se esse último numericamente maior.

O relato de nossa amiga, conquanto estarrecedor é sintomático de uma era de indisfarçável barbarismo que parece apoiar a alegação de que o matrimônio é Instituição em crise.

Modestamente, contudo, atrevemo-nos a asseverar que o que está em crise não é o casamento nem tampouco o Instituto da família, porém sim, o que está em crise mesmo é a educação, cada vez mais tíbia e inoperante face à barbárie moral em que se deixa mergulhar o mundo dos nossos dias, sacudido por dolorosas convulsões sociais, fase de transição cíclica, a mais grave e definitiva de quantas tenham impulsionado o progresso coletivo e a prevalecer o que prenunciam as revelações do invisível, destinada a elevar a Terra na hierarquia dos mundos. Compreende-se que, por força dessa transição, todas as Instituições sejam abaladas em seus pilares, denunciando as entranhas convulsionadas pela eliminação das toxinas milenares e estulto seria pretender restabelecerem-se as coisas nos moldes de um conservadorismo saudosista e balofo, piegas e irreal, pela aplicação de fórmulas de ideais superados, inadaptáveis às necessidades e ânsias novas, novas relações de realidades. Estulto seria aspirar ao revigoramento do Instituto doméstico, insistindo em velhos moldes da educação em termos propostos pelos sistemas sociais moribundos em que a família sobrelevava, estruturada em bases manifestamente egoísticas e submetida ao despotismo de um chefe atrabiliário, mas, supostamente infalível, como também seria estulto insistir nos velhos moldes de educação alicerçados no princípio da autoridade do educador e não nos valores virtuais e humanas potencialidades do educando.

É curial que não nos referimos meramente à instrução pública, conquanto a reconheçamos carcomida e arcaica porque esta, em virtude de interdependência dos fenômenos sociais só poderá renovar-se à custa de uma transformação total nos atuais padrões de cultura. Transformação simultaneamente econômica, política e social, o que escapa à alçada das iniciativas individuais, se bem funcionem esses individuais empreendimentos como causas de relevância, mas, depende aquela transformação de uma série de fatores estranhos às nossas cogitações do momento entre os quais se alinha e avulta o determinismo histórico. Não segue realizando-se ao acaso como quer o materialismo, porém, providencial e objetivando-se conquistas a um fim inconscientemente previsto e desejado pela Humanidade em seu cursivo ascendente e perfectível.

O que queremos significar é, sobretudo, a educação no recesso dos lares e, por extensão, nas Instituições Espíritas, que urge converter em organismos dinâmicos, operosos e atuantes de renovação mediante a comunhão efetiva de nossos ideais e propósitos, aspirações e esforços.

Em pouco tempo, os métodos educacionais têm oscilado de um extremo a outro, ambos igualmente condenáveis, de uma rigidez absoluta, baseada em processos punitivos e em corretivos violentos com estrangulamento das autoafirmações da criança.

A educação, graças à vulgarização de uma falsa psicologia, então incipiente, a serviço da impostura, chegou a um exagero de liberalidade e afrouxamento, popularizando-se o conceito de que era necessário deixar a criança entregue a si mesma e evitar-lhe todo o cerceamento da personalidade a qual evolveria tanto mais sadia quanto menos sujeita a pressões e constrangimentos emanados do mundo exterior, pelo que competiria aos pais abdicar de sua missão profícua de orientar e dirigir os filhos em sua etapa de formação, nem sequer plasmar-lhes o comportamento social desejável pelo oferecimento de um modelo ético compatível com os usos e costumes enraizados na consciência coletiva.

O resultado é que ainda em nossos dias, duas modalidades de educação coexistem reforçando o quadro dos desajustamentos de psicopatologias de um mundo insano.

A geração mais velha ou busca sufocar a que dela nasceu guardando-lhes os anseios e a floração ou permite todas as liberdades e fantasias a uma juventude nascida e conformada na idade técnica.

Essa pobre geração de seres, assinala Ofélia Boisson Cardoso, que teve por visão infantil o cemitério, que são as cidades de arranha-céus e como canção de berço o furioso estrondo das armas de guerra, o apito das fábricas e a descarga dos aviões a jato profanando o céu azul.

Em consequência dessa súbita renovação de métodos e conceitos educacionais, os pais ou se revelam temerosos de educar os filhos, possuídos da insegurança resultante do receio de acarretar-lhes um desencadeamento de traumas, complexos e recalques e não sabem que atitude tomar diante das mais comezinhas situações criadas pela criança, transformada de uma hora para outra em ditador dos lares, ou então os pais se jactam de uma autoridade medieval, resolvendo as situações mais díspares pelo apelo indiscriminado aos castigos físicos e à força bruta afirmando, catedráticos da violência, que os grossos compêndios de psicologia infantil têm uma única utilidade, a de serem usados à guisa de chinelos, numa tunda em bom estilo.

Ignoram uns e outros, os vacilantes e os valentões que existe hoje uma Ciência nova, a Orientação Educacional, na qual se se dispusessem à pesquisa e se encarnassem com maior responsabilidade, a difícil e sublime missão do educador, colheriam um farto material de estudo para se desincumbirem razoavelmente da árdua tarefa que lhes foi imposta ao nascer-lhes um filho, personalidade independente da deles, Espírito imortal em trânsito para a sublimação, a exigir-lhes carinho, direção, respeito, novas diretrizes e valores renovados.

O que se tem verificado, ao contrário, é a desorientação, o despreparo, a improvisação. Mas, justifica-se, de um sistema de vida familiar estritamente patriarcal, tomado à França e ao povo lusitano que nos colonizou, estruturado como uma unidade social perfeitamente definida, onde o páter-família detinha toda a autoridade, que jamais claudicava e registramos o fato tão somente sem levar em conta se estava certo ou errado.

Chegou-se, pela influência do American Way of Life, projetado nos filmes cinematográficos, em alguns livros que se fizeram Best Sellers, chegou-se a um regime familial completamente oposto, um tipo de cultura inteiramente diverso, sem que houvesse transição gradual e progressiva para adaptar e condicionar as nossas tradições, a revolução educacional que então se operou surpreendendo todos, pais, mestres e crianças, que não estavam preparados psicologicamente para tão brusca revisão de métodos e conceitos. E ganharam força de lei slogans como: Não interfira na educação do seu filho, respeite-lhe os impulsos, a maneira de ser. Educar deforma a criança, deixemo-la evoluir naturalmente.

Inverteu-se, então, completamente a ordem até o momento estabelecida. A criança passou a constituir a única razão de ser da família. A criança, com seus naturais impulsos, caprichos e exigências.

Muitos pais passaram então, porque lhes nasceu o medo de intervir na vida do filho, à condição de meros espectadores. Outros se deixaram invadir e derrotar por fortes sentimentos de culpa, angustiaram-se. Outros, enfim, alternaram momentos de passividade e submissão aos filhos com explosões de cólera e revolta.

Como decorrência inevitável, os filhos, ou foram abandonados inteiramente à sua própria natureza, mas absorvendo a instabilidade emocional dos pais que neles projetaram as suas angústias, fobias e vacilações ou foram objeto de uma superproteção, pretendendo os pais substituir-se a eles na superação dos obstáculos naturais da vida e do complexo social, à custa de mimos excessivos e atitudes sentimentaloides.

Esqueceu-se que é missão profícua dos pais justamente a educação dos filhos. Incumbe precisamente aos pais orientá-los com amor para que vençam as dificuldades.

Os pais não podem viver a vida dos filhos, nem abrir mão de sua própria vida para centralizá-la na criança. Os pais, e tanto mais se espíritas, devem ver nos filhos cidadãos da coletividade humana, membros da imensa família universal e não seres especiais ou propriedade particular, mero apêndice, sem individualidade, no corpo dos pais.

Os filhos destinam-se à vida lá de fora e têm personalidade própria que, como tal, deve ser desenvolvida e orientada, incumbindo aos pais imprimir-lhes inicialmente o sentido dessa orientação e desenvolvimento, por tal modo que a adaptação ao meio social, que transcende os horizontes da família, se faça suave e seguramente.

Educar, assinala Ofélia Boisson Cardoso, não consiste em criar situações artificiais de vida, em arrumar meticulosamente um quebra-cabeça, pretendendo obter assim o meio adequado ao educando. É justamente o contrário: é processo natural e que, portanto, naturalmente, se processa. O meio tem de ser considerado como uma realidade a qual se deve adaptar o educando, conduzindo-o gradativamente a integrar-se aos diferentes grupos da sua comunidade.

Os filhos são educados, inicialmente, pelos pais, porém, não para os pais e sim para o mundo e a vida. Nós, ainda moços, compomos uma geração, por assim dizer, experimental. Fomos nós os que sofremos a aplicação dos mais desordenados métodos educacionais, quando não, a ausência total de métodos. Nossos pais foram contemporâneos à reviravolta que convulsionou os padrões estabelecidos da cultura e os moldes consagrados da família nitidamente patriarcal. É mérito, não sei se nosso, se dos que nos serviram de pais, que tenhamos chegado até aqui indenes à barbárie moral da juventude hodierna, que não só nas grandes cidades, até nas menores, delinque e se desarvora na amoralidade da barbaria moral da juventude hodierna, enquanto aqui nós nos congraçamos para nobres fins e superiores objetivos.

Todavia, se aqui viemos para atender a nobres fins, superiores objetivos, saibamos encarar com responsabilidade todos os momentos desta confraternização, mantendo o devido respeito e o silêncio, que se tornam imprescindíveis.

O fato é que a geração dos nossos pais, não por culpa sua, mas por força da revolução educacional, que os apanhou de surpresa, em meio a duas Guerras Mundiais, e ao abalo das Instituições seculares, o fato é que a geração dos nossos pais agiu como pôde, nem sempre como deveria, acertando algumas vezes, errando, muitas outras, sem outro guia que não o próprio discernimento, bebido no amor que, porventura, nos tenham votado.

Entretanto, se isso sucedeu com eles, não deve ocorrer conosco. Nós simplesmente não podemos errar e não podemos porque hoje existe, repetimos, uma Ciência nova, a Orientação Educacional, capaz de nos esclarecer quanto à melhor maneira de educar os nossos filhos.

E nem porque somos espíritas, crendo na reencarnação e na repercussão do pretérito sobre o presente, podemos menoscabar e descurar o valor da educação e a força compulsiva do meio, na condução do Espírito reencarnado, sobretudo no período da infância que, como assinala Emmanuel, em O Consolador, onde alinha notáveis verdades sobre a educação, é o mais sério e o mais propício à assimilação dos princípios educativos.

Porquanto, adianta o amorável preceptor, se educação não se houver feito na época infantil, só o processo violento das duras provas no mundo poderá renovar o pensamento e a concepção das criaturas, porque então, a alma reencarnada terá retomado todo o seu patrimônio nocivo do passado e reincidirá nas mesmas quedas, se lhe faltou a luz interior dos sagrados preceitos educativos, o que vale dizer que cada vida nossa é uma oportunidade inteiramente nossa, deferida ao Espírito falido, que deve ser valorizada ao máximo. E os pais, graças a um mandato sublime que lhes incumbe, são instrumentos eficazes dessa valorização.
Mas, o que é a Orientação Educacional? Um manual de receitas exatas, um compêndio de fórmulas infalíveis que ensine aos pais e educadores como agir face a todas as situações? Não, de modo algum. A Orientação Educacional não é um manual de receitas exatas, porque a isso só se dão os impostores charlatães, os vulgarizadores de falsa psicologia, os escrevinhadores de crônicas levianas em revistas populares.

Por muito que conheçamos da Psicologia infantil, por muito que conheçamos da própria Psicologia, da Psicanálise, da Psiquiatria, da Parapsicologia e do próprio Espiritismo, ainda pouquíssimo conhecemos da mente humana. A mente é um universo e não pode ser esquadrinhada como um mecanismo de respostas sempre previsíveis e matemáticas.

O que faz a Orientação Educacional é deduzir da experiência da vida e essa experiência será tanto mais rica quanto mais vivido e humanizado o educador.  Deduzir da experiência da vida em contexto com as afirmações e a ciência da alma já pôde comprovar, princípios e normas gerais de educação que nos possibilitam antever determinados comportamentos e atitudes, bem como assumir certas premissas cientificamente válidas.

Essas normas gerais e princípios, porém, transformam-se ao serem aplicados. A teoria na prática é diferente, assevera o renomado mestre Lourenço Filho e assim é efetivamente. A teoria não deixa de ser verdadeira, mas é uma verdade que assume múltiplos coloridos e mesmo diversas gradações de tonalidades, variando em cada caso individual.

No símile proposto por Ofélia Boisson Cardoso, a teoria é como um prisma de cristal. O prisma é em si mesmo uma sólida realidade. Se o aspecto muda, todavia, de acordo com o ponto de vista do observador e com a forma porque nele incide a luz, a Orientação Educacional ressalta sim, a individualidade do educando. Cada educando forma com o meio uma equação que, embora sustentando-se em princípios gerais, assume fisionomia própria e de certa forma inédito.

Cada educando propõe ao educador problema diferente a exigir a valorização de aspectos diversos, o que impõe solução específica para cada caso concreto e nisso vai ter sempre prevalência o bom senso de quem educa.

Mais do que tudo, a Orientação Educacional destaca o lar como meio mais adequado à formação da criança, considerando pai e mãe insubstituíveis em seu ministério, por assim dizer, Divino, porque educação é criação e afirmando que um casal feliz, bem ajustado, que nutre o amor recíproco e ama seus filhos, saberá como resolver os problemas de suas crianças por nelas infundir coragem, alegria, otimismo, esperança e  amor.

Porém, o amor vem sempre mesclado a outros sentimentos, sendo amiúde confundido com egoísmo. Os pais, muitas vezes, pensam amar os filhos quando, na verdade, amam a si próprios na pessoa dos filhos, esquecidos de que quem ama renuncia, não escraviza, nem superprotege, não alimenta o ciúme, nem impõe outra condição que não a felicidade plena e real do ente amado.

Por ser assim e porque somos uma geração desajustada, traumatizada, angustiada, não se concebe que nos atiremos ao casamento como quem se lança a uma aventura, sem qualquer conhecimento dos problemas educacionais e sem qualquer conhecimento da bibliografia que disso trata.

Herdeiros de uma civilização em agonia e sabedores de que educar, se é obra fundamental de pais e mestres também é, em última análise, obra de toda uma comunidade.

Se não queremos transmitir aos nossos filhos o patrimônio torturado dos nossos próprios desacertos, será temerário cheguemos ao matrimônio sem uma tomada de consciência no mundo atual, cheios de opiniões, mas, destituídos de convicções.

Urge nos reeduquemos, primeiro, para depois educar e a Orientação Educacional aliada à Doutrina que nos irmana e confere aquela indisfarçável e infinitamente maior amplitude de vistas, nos ajudará a reduzir ao mínimo os erros e deficiências de uma educação empírica, quase sempre afastada da realidade da vida e do momento apocalíptico que vivemos.

Comecemos pela consulta de livros amenos, nem por isso menos valiosos como só em ser os de Ofélia Boisson Cardoso e Isabel Junqueira Smith, ambas católicas, porém, dotadas de um espírito universal, mais positivo na primeira do que na segunda, o que lhes permite superar os prejuízos de crença, seita e preconceito e nos aprofundemos progressivamente no estudo dos grandes educadores nacionais e estrangeiros.

E, ainda que não venhamos a constituir o nosso próprio lar, se obrigados ao celibato, por altruísmo e abnegação, porque o celibato só deixa de ser condenável quando determinado por motivos não egoísticos, estaremos aptos a desempenhar relevante missão educativa nas Casas Espíritas de trabalho, cujas aulas de evangelização serão então incomparavelmente mais objetivas e eficientes, à guisa de colaboração espontânea com o apostolado dos senhores pais.

Mas, o nosso assunto básico é o casamento e nos dispomos agora aferir um ponto delicado ligado à educação, a preparação para o casamento, o que suscita a abordagem dos temas sexuais.

A palavra sexo funciona à maneira de ímã e tem o poder de atrair de pronto o interesse das criaturas de qualquer nível, talvez por conservar ainda a aura de mistério que a cercou por muito tempo. Hoje, já é possível mencioná-la em público sem merecer a reprovação imediata da hipocrisia moral das épocas passadas.

Mas, ao menos no Brasil, ainda os temas sexuais constituem uma espécie de tabu. Permanece como assunto secreto e sigiloso, privativo de homens e assim mesmo, homens que perdem a naturalidade ao discorrer sobre ele.

Ainda estão na consciência popular estreitamente relacionados com o pecado e a malícia, a pornografia e a ignorância, uma coisa suja e repugnante, essencialmente imoral, proibido e pecaminoso.

É como se o corpo humano, à semelhança de um mapa, esteja dividido em zonas morais. Umas como o rosto e as mãos, imorais outras, como os órgãos da reprodução, quando, na verdade, a imoralidade não está nas partes do corpo, mas na ideia que se faz delas, E, se existe algo de verdadeiramente nobre, digno, moral no corpo humano, são justamente os órgãos genésicos, já que são eles a fonte da vida e não podem responder pelo uso inadequado em que se os deixe viciar, nem pelo abuso e lascívia a que se os submeta.

Ofélia Boisson Cardoso nos conta, e note-se que os casos por ela relatados, mãe e educadora que é, são tirados da vida real, de um garotinho de cinco anos, bem orientado e sadiamente dirigido pelos pais.

Ao visitar uma fazenda viu nascer um bezerro. Emocionado, correu para junto da mãe e exclamou:

É maravilhoso mamãe, ele sai da vaca prontinho, com pelo e tudo e vai logo querendo andar!

Essa criança, na pureza de seus sentidos e sentimentos, não foi formada pelo falso conceito religioso do pecado e por isso não viu no nascimento um ato imoral, imundo e malicioso. Percebeu sim a maravilha da criação e diante dela se extasiou, coisa de que muita gente é incapaz, porque teve distorcida a visão moral da vida.

A ignorância sobre o sexo é estarrecedora, a imaginação completa o esquema imperfeitamente apreendido e cria monstros, fantasmas e aberrações, plasmando no pensamento e à custa dele, o pensamento, toda uma série de cenas incontestáveis.

Semelhante estado de coisas prejudica e compromete desastrosamente as relações entre homem e mulher.

A primeira noite conjugal, principalmente entre as moças, assume ainda os contornos de um pesadelo aterrador. E efetivamente, muitos conflitos matrimoniais se originam dessa noite e não são poucos os amores que nela morrem irremediavelmente.

Não poderia ser de outra forma porque ainda hoje, ao menos no Brasil, homem e mulher se apresentam ao Himeneu igualmente viciados por uma educação defeituosa e criminosamente falsa.

Não faz muito, educava-se o homem para ser um libertino e um devasso. E tanto mais homem seria quanto mais devasso e libertino fosse, enquanto a mulher era obrigada a sofrear e mesmo frustrar todas as suas ânsias naturais de realizar-se como mulher e mãe, impondo-se-lhe um regime conventual que a conservasse pura, mas, em vez de pura, ela terminava frígida e incapaz de amar integralmente, com a mente intoxicada pelo horror ao pecado e toda a sorte de inibição.

Hoje, ainda, o homem é educado para ser um libertino e um devasso, enquanto a mulher é cuidadosamente preparada para provocar, muitas vezes, inconscientemente, a lascívia no sexo oposto, ataviada dos pés à cabeça como um instrumento de prazer sensual, uma mercadoria que se requer seja ricamente empacotada para conseguir o melhor preço no mercado carnal do matrimônio.

A situação permanece a mesma. A noite nupcial é ainda caracterizada pelo desequilíbrio entre um rapaz aviltado em deformadoras experiências sexuais, polidas no amor mercenário dos prostíbulos e uma jovem povoada de fantasias e falsíssimas informações e o mais é obtido em leituras mal assimiladas quando não, de péssima qualidade, ou através de sórdidas anedotas ouvidas nos cochichos.

É nessas condições que inúmeros homens e mulheres se lançam à aventura do casamento, por lhes ter faltado a mais mínima orientação e educação sexual, o que não se improvisa às vésperas do consórcio, porém, se faz naturalmente, de preferência desde a infância, não havendo, e nisso concordam os educadores, quem a deva ministrar com mais autoridade, proficiência e propriedade do que os pais. Porém, esses, ignorantes igualmente, quase sempre torturados, a tanto se recusam.

Quando os jovens espíritas, reunidos em Congresso, incluem o assunto sexo no seu temário e o vêm fazendo com pasmosa constância ultimamente, o que conseguem demonstrar é a preocupação em que neles se constitui o sexo, evidenciando terem carecido de uma formação adequada e necessária no instituto doméstico, o que os obriga a procurar uma solução coletiva, que lhes aquiete os pavores, as angústias e as viciações.

Dificilmente, ao nosso ver, encontrarão a solução por esse meio, aguardando em vão que a Doutrina Espírita lhes forneça um código de conduta válido para todos os momentos a que se devam sujeitar compulsoriamente, pois o que ao Espiritismo incumbe é bosquejar princípios gerais que nos definam o sagrado caráter do sexo e coloquem o sexo a serviço do amor e não o amor a serviço do sexo. Princípios, no entanto, que cada um aplicará a si, na medida de seu esclarecimento, capacidade e entendimento próprios.

A solução só a conseguirão, ao nosso ver, individualmente, reeducando a mente, onde reside fundamentalmente o problema sexual e procurando, sob a direção de psicólogos competentes e categorizados ou em bibliografia honesta e edificante, não meramente sexológica, mas, educacional, corrigir suas viciações psíquicas e errôneas informações, fruto da orientação falaz em que nadam aberrações, que esgravataram nas conversas mal avisadas. E uma tal reeducação é imperiosa porque, dentro em breve, eles próprios serão chamados à paternidade e à maternidade e ninguém pode dar o que não tem. Se a orientação que recebemos foi insuficiente e viciosa por incúria dos nossos pais, não podemos repetir o mesmo erro para com os nossos filhos.

Existem normas a serem obedecidas, na educação sexual dos filhos. Normas gerais, que a prática especificará no momento da aplicação. Não cabe relatá-las nas dimensões de uma simples palestra. Diremos apenas que toda educação sexual da criança deve ser feita, se possível, no próprio lar, inicialmente pela mãe. Não é que se pretenda fazer uma distinção entre pai e mãe, mas é que até os cinco, seis anos a criança está mais ligada à mãe, não só por um fato biológico, senão também por força de um permanente contato.

A colaboração entre os pais, contudo, é necessária. Se o filho, em qualquer idade pergunta, propõe a questão ao pai, incumbe a este responder. Depois dos seis ou sete anos, aproximadamente, é a época em que o menino se identifica ao pai e a menina à mãe, será o pai quem se encarregará preferentemente da informação sexual do menino e a mãe chamará a si a da menina. Nesse caso, estando presente os dois genitores a mãe poderá dizer:

Pergunte ao papai que é homem como você.

Enquanto o pai dirá:

Pergunte à mamãe que é mulher como você.

Pois é absolutamente imprescindível que a criança se capacite desde cedo da diferenciação sexual e compreenda que homem e mulher, se diferentes, não são oponentes, mas colaboradores, com vistas à realização de um propósito comum de vida, cabendo ao menino introjetar a figura paterna e à menina introjetar a figura materna a fim de que ambos possam evolver sexual e psiquicamente sadios.

Se os pais, entretanto, não se sentirem capazes por angústia, inibição ou má orientação, devem procurar orientação para si próprios, instruindo-se e lutando contra suas próprias dificuldades e limitações.

Não existe, propriamente, uma idade para se fazerem revelações sobre o sexo. Existem oportunidades que se devem aproveitar. O momento mais adequado é o que a própria criança indica quando formula a clássica pergunta:

Como nascem os bebês?

Se nada inquirem, devem os pais desconfiar de si mesmos. Por que o nosso filho não confia em nós? E tratar de reconquistar-lhe a confiança, pois é anormal que, ao menos na infância, o filho não recorra, espontaneamente, aos pais sempre que algo lhe preocupe. Toda a informação deve ser fornecida de maneira simples, natural, direta, concisa.

A criança quer saber sempre uma coisa limitada de cada vez e espera também uma resposta limitada. Se não se der por satisfeita proporá novas indagações. Não precisam, pois, os pais inquietarem-se com mil e uma coisas de natureza sexual que só estão no seu próprio pensamento e jamais no do filho.

A orientação sexual é progressiva e sempre suscitada pelas perguntas que a própria criança formula, à medida que observa os fatos e raciocina sobre eles.

Começará então, normalmente, pela explicação de como e donde nascem os bebês e chegará, gradualmente, à informação de que também o pai colabora no processo da fecundação; de que ela tem em si um pouco do papai e um pouco da mamãe e isso, de maneira natural e simples, sem apelos à mentira, sem eufemismos, sem fantasias, sem imagens poéticas, mas irreais, que só servem para desacreditar os pais junto aos filhos, que então, porque enganados uma vez, se recusarão a confiar-lhes novas dúvidas e segredos.

Tais revelações, repetimos, devem ser feitas no lar, entre lições de carinho e amor que só a vida em família pode ensejar.

Tem razão quem afirma que nada há melhor, num momento difícil, do que tomar a criança nos braços e só então dar-lhe a resposta, sem angústia, sem pavores, nem reticências.

Não se trata de pieguice, mas de um gesto natural de proteção que assegura ao pequenino a certeza do amor dos pais e, com essa certeza e algum tato, fruto mais da intuição do que de aprendizagem, qualquer resposta honesta pode ser dada, seja o que for que o filho pergunte.

Porém, se os pais não se sentirem psicologicamente preparados, se lhes faltar serenidade ou presença de espírito, será sempre melhor que procurem conselhos em fontes idôneas e competentes para depois transmiti-los, eles próprios, aos filhos, com amor, carinho e o cuidado que só os pais amorosos podem ter para com os seus rebentos.

A orientação sexual deve ser alicerçada em preceitos de saúde moral e higiene. Nunca, porém, mesclada a noções religiosas de demônio, inferno, pecado ou punições post mortem, que apavoram a criança, roubam-lhe a segurança e lhe inoculam o complexo culposo, o que a levará para autopunir-se, a repetir o ato condenável ou dissociar-se psiquicamente.

Assim, se o filho é apanhado a cometer uma falta sexual, seja de que natureza for, só há uma atitude aconselhável para o pai ou educador: reprovar com firmeza mas, sem dramaticidade, esclarecer e amparar para que o fato não se reproduza.

Assim, pois, toda a educação, nos primeiros anos de vida, se baseia na formação dos reflexos condicionados, pela repetição dos mesmos atos, sempre nas mesmas circunstâncias e em etapas posteriores inspira-se no apelo à razão.

O mesmo acontece, evidentemente, no caso particular da orientação sexual. Quando a criança já é capaz de raciocínio, os conselhos devem ser ministrados racionalmente. Nada de proibição pura e simples, sobretudo na adolescência. Nada de proibição pura e simples com ameaças de castigo, com ameaças de penas eternas, com fantasmas das falsas concepções religiosas. Nada disso, sobretudo na adolescência, mas, a exposição racional dos fatos que desaprovam tal ou qual atitude. O adolescente quer sempre saber o porquê, tem o direito de saber e, portanto, deve saber.

Toda a orientação sexual deve ser ministrada na base da lealdade. Se os pais amam os filhos, instruam-nos para que eles não se traumatizem em contato com a vida e com o mundo, com a sordidez das sarjetas. Se os pais amam os seus filhos, preparem-nos para a vida, instruindo-os amorosamente, carinhosamente, ensinando-lhes a amar e respeitar toda a criação porque nada do que Deus criou é imundo ou pecaminoso. Tudo no Universo canta o amor, canta a pureza, canta a esperança, canta a beleza e canta a Deus.

Só assim se poderá obter da parte de nossos filhos o comportamento sexual correto e desejável, que nascerá de escolha própria, convictamente assumida pelo indivíduo, sem imposições que fujam à própria vontade.

Entendemos que a castidade seja o melhor caminho e a melhor orientação para moças e também rapazes na adolescência até o casamento, no entanto, a castidade deve ser eleita racionalmente, assumindo o rapaz como certeza própria a inconveniência de profanar o amor no conúbio com prostitutas, por não lhe caber o direito de satisfazer mentirosamente seu impulso criador de vida à custa de humilhação de pobre mulher, sempre filha de alguém ou irmã de alguém, sempre uma mãe em potencial, que lhe venderá carícias para conseguir o pão.

Evidentemente, a castidade é moral e não meramente física. Não se impõe castidade por meio de restrições. Castidade é coisa que a educação, de preferência desde os primeiros anos de vida, forja na mente do educando pela compreensão esclarecida e saudável da destinação superior do sexo, jungido ao amor de que é a materialização.

Castidade é, pois, atitude moral que se traduz no plano físico pela continência, mas, é mera continência. Sem castidade, a continência imposta ou decorrente de inibições, recalques e frustrações pode, muitas vezes, degenerar em práticas abomináveis.

Daí porque recomendamos aos jovens espíritas que busquem antes de mais nada, acima de tudo, a castidade, castidade moral, castidade do Espírito, castidade de ideias, castidade de conceitos perante a vida, o que pode ser conseguido também, não obstante duras penas, pela autoeducação, pela reeducação da mente.

Ainda mesmo que já tenham iniciado o exercício sexual fora do matrimônio ou mesmo que não tenham recebido a orientação sexual sadia e eficiente no próprio lar, façam-no eles, porém, com a convicção íntima, própria de que escolheram a atitude mais conveniente perante a vida, perante o amor e não simplesmente por temerem a reprovação exterior. Eduquem-se intimamente para que a visão da vida de todos e de cada um seja uma visão pura, uma visão casta.

O processo será sempre mais fácil compreender junto àqueles que ainda estão em formação, junto aos nossos filhos, aos frutos do nosso casamento e para essa orientação nos devemos preparar.

Existem determinadas técnicas, todo um conjunto copioso de experiências valiosas que, aliadas à intuição e norteadas pelo bom senso, tornam possível, viável, provável a orientação sexual dos filhos na adolescência tão tormentosa nestes dias de buliço e desorientação. Tornam possível a orientação sexual dos filhos na adolescência para conduzi-los sadiamente ao casamento e à constituição de uma nova família.

É preciso, pois, que nos disponhamos a conhecer e aplicar essas técnicas junto aos nossos filhos porque temos deveres juntos a eles, deveres que nos exigem orientá-los para a realidade e a pureza da vida universal.

E estejamos certos de que homem e mulher, bem orientados e esclarecidos desde a infância sobre os fins nobres e superiores da vida e a nobreza do sexo, estarão muito mais aptos a realizar um casamento harmonioso e constituir uma família estável do que aqueles que se consorciam com a mente desajustada e viciada no instinto.
Criança e adolescente situados num plano de vida que incluem atividades recreativas, de estudos, esportivas, sociais, literárias, artísticas, teatrais e beneficentes desenvolvem-se com menores tensões e preocupações sexuais.

O impulso da vida se canaliza num sentido produtivo e o sexo não se fixa como centro absoluto de interesse, mormente se as mãos e o cérebro estão empenhados, constantemente, em criar algo que o grupo valorize e admire. Cabe-nos, pois, conhecer essas técnicas, essas informações, essas normas gerais para conduzirmos os nossos filhos sadiamente até o casamento e à constituição de uma nova família.

Cremos que o revigoramento do instituto matrimonial só será eficaz se fundamentado numa reavaliação dos princípios educativos, que vá desde a educação sexual até a mais ampla educação para a vida. E nessa educação ampla para a vida, a religião tem papel importante a desempenhar, mas, religião que não fanatize e sim liberte. Religião que esclareça e não escravize.

Nesse passo, o Espiritismo, que transcende os limites estreitos de uma seita religiosa, porque não é e nem deve ser uma facção separatista, bitolada, isolacionista, mas deve permanecer uma filosofia de vida que tem base científica e profundas consequências religiosas.

O Espiritismo pode levar a melhor sobre os credos espiritualistas do passado e, se mobilizado em apoio às modernas técnicas educacionais pelos pais espíritas, mesmo nas aulas de moral cristã, objetivando-se educar os indivíduos para o presente e para a comunidade mais do que em função da vida futura, produzirá farta sementeira de renovação e otimismo.

A instituição da família suscita hoje interesse de sociólogos, educadores e psicólogos que a querem salvar do naufrágio. Buscam todos recuperá-la sob novas fases sociais e culturais, convencidos de que ainda há família, a célula mater do organismo social, princípio que prevalece mesmo na Rússia Soviética, onde de início se tentou extingui-la para logo depois se reformularem os conceitos e considerar-se a extinção da família um argumento antirrevolucionário, tendente a enfraquecer o programa de construção socialista. E já nasce no Ocidente uma nova Ciência, a Política Familial que é objeto dos mais acurados estudos sociológicos e desperta o interesse de inúmeros membros do clero romano. Chama a si membros eminentes e esclarecidos da Igreja, como o Padre Pedro Calderan Beltrão, autor de um excelente tratado: Família e Política Social.

E sempre nos parece lastimável que enquanto clérigos e monjas, na devoção ao seu ideal, produzem contribuições notáveis à Sociologia e à Psicologia Educacional, nesta hora trágica da Humanidade, os espíritas nos mantenhamos à margem de todo esse princípio, de todos esses movimentos, de todo esse surto renovador, exclusivamente ocupados em forjar normas de conduta individual pretendendo regular e padronizar o comportamento dos espíritas em tais e tais circunstâncias, sem qualquer consideração social mais profunda, como se o Espiritismo fosse um ideal morto que não soubesse ou não pudesse falar a linguagem do século XX. Não fosse ele um ideal atuante, vivo, atual, revolucionário, palpitante, que fala ao indivíduo e à comunidade.

O que é certo é que a família se reforma. A forma patriarcal entra em colapso e é inútil nos rebelarmos contra as imposições do progresso. Enquanto a família se renova e busca a expressão, em realidades definitivas, assume um aspecto quase matriarcal, como acontece, sobretudo nos Estados Unidos, onde segundo referem os críticos, vigora a seguinte escala de valores:

1º - A mulher
2º - A criança
3º - Os anciães
4º - Os animais domésticos
5º - O homem.

Conquistando sua igualdade de direitos como homem, depois de séculos de aviltante escravidão, a mulher tenta agora tomar-lhe terreno usurpando a personalidade masculina. Metamorfoseou-se a mulher em implacável adversária do homem e não a sua colaboradora. Aos poucos se vai virilizando, enquanto surge no homem aspectos nitidamente feminoides e essa perigosa inversão é tanto mais notória na cultura americana do Norte que, gradativamente, se difunde entre nós e na qual as mulheres assumem posições masculinas. São agressivas, eficientes em profissões que demandam energia e capacidade administrativa à medida que os homens se tornam menos agressivos, mais suaves, um tanto imaturos afetivamente, gostando de enfeitar-se e rompendo com os moldes clássicos do trajar masculino.

Evidentemente, a cultura atual exige um novo tipo de mulher, sobretudo, com respeito ao cultivo do intelecto e à capacidade de ganhar a vida. Não pode a mulher permanecer por mais tempo submetida aos caprichos e arbitrariedades do homem, relegada a um ostracismo que a esteriliza e embrutece intelectualmente, emparedada no lar, sem qualquer acesso às conquistas do Espírito, como até há bem pouco acontecia. De modo algum inferior ao homem.

E, nós espíritas não podemos aceitar qualquer teoria que sancione a superioridade do homem, pois que os Espíritos podem encarnar diferentemente, ora num sexo, ora no outro.

De modo algum inferior ao homem, não pode e nem deve a mulher retardar-se ou renunciar à conquista dos seus direitos. É-lhe mesmo imprescindível que se dedique ao estudo e cultive o seu patrimônio cultural como Espírito imortal que é e se destina a fulgir eternamente. A mulher da tina e do fogão vai aos poucos se transformando em figura de museu a testemunhar todo um passado de odiosos privilégios garantidos ao homem.

Mas, o que a ela não cabe, de maneira alguma, é despojar-se da sua feminilidade, embotar a sensibilidade, reprimir a intuição, que tem sido a salvaguarda nessa civilização eminentemente técnica e materialista.

Em resposta à questão 822 de O Livro dos Espíritos, informam as Inteligências Invisíveis que a legislação humana para ser equitativa deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher e que a emancipação dessa acompanha o progresso da civilização. Mas, não a igualdade das funções, pois é preciso que cada um esteja no lugar que lhe compete.

E, no cenário da vida, homem e mulher devem representar de forma peculiar o seu papel específico. Cada um ocupa o seu lugar definido e o lugar da mulher tem sido sempre bem demarcado entre as criaturas.

A sua constituição física mais frágil, a maneira de conduzir-se e organizar o pensamento desde a infância, a atitude maternal, que assume instintivamente, diante do que é fraco e simples, tudo a destaca como a imagem da suavidade. Mas, suavidade persistente e heroica, capaz dos mais penosos sacrifícios, impregnada de dulçoroso enlevo e potente força magnética que agem sobre a família estruturada emocionalmente a sua volta.

Apresente-se ela de anquinhas e saia rodada que toca o chão ou em vestidos higienicamente curtos, de longas tranças ou com os cabelos cortados, com o rosto despido de artifícios ou embelezados pelos cosméticos aplicados com bom gosto, a figura da mulher estará sempre associada a ternos sentimentos. Há de ser sempre maternidade, consolação, amparo e refúgio para todas as dores e todas as penas. Será sempre e essencialmente a mãe, centro moral da família, base de todo agrupamento humano estável que se regula por leis e princípios sadios.

A mulher será sempre mãe e essas sublimes prerrogativas ela não pode perder em sua corrida competitiva com o homem. Ministrando a esse as primeiras lições da vida, sua missão chega a superar a do próprio homem, conforme expressam taxativamente os Espíritos em resposta à questão  821 do livro básico da Codificação.

No mundo atual, que estatuiu o trabalho remunerado como opção de sobrevivência, pode a mulher, quando precisar, mulher trabalhar e há inúmeras profissões que condizem com a sua organização física e moral, como é certo que desenvolver uma atividade socialmente útil fora do lar, dá ao ser humano a sua verdadeira dimensão de membro de uma família infinitamente maior e solidária em seus destinos universais.

Mas, o que ela não pode e nem deve é deixar de ser o eterno feminino, a mãe por excelência, que procurará conciliar a atividade profissional com as suas tarefas domésticas, sobretudo a educação dos filhos enquanto esses se mantêm na escola, e é mesmo desejável que os filhos se encaminhem desde cedo à experiência social, ajustando-se à comunidade a que se destinam. Nada impede que ela se dedique a misteres de relevância social fora do templo familiar, desde que tribute todo o seu tempo disponível em casa, à sua sublime missão de preceptora natural e insubstituível dos filhos.

As mães mais completas, inteligentes, sensíveis, que temos conhecido, exerciam o magistério ou faziam orientação educacional em estabelecimentos de ensino, alternando com proficiência e sabedoria suas obrigações no lar, dispensando outra diversão que não fosse no próprio trabalho e os momentos de inefável e abençoada comunhão e identificação com os filhos.

E as piores mães, as menos eficientes, que temos conhecido, eram as que angustiadas e entediadas com o emparedamento dentro de casa, não tinham paciência para educar os filhos, não os sabiam educar e consumiam horas preciosas em cabeleireiros, rodas de pif-paf ou em chás ociosos com amigas maledicentes.

Pode, pois, a mulher trabalhar porque o tipo de cultura em que vivemos é outro e ela já não consegue ajustar-se ao ostracismo sem prejuízo de sua estabilidade emocional e psíquica. A diferença das mães de outrora e as adaptadas ao estilo de vida então vigente, é que aquelas se resignavam às tarefas caseiras muito mais absorventes naquele tempo do que hoje.
Mas o que a mulher não pode, nem deve é rivalizar com o homem nas funções que só a esse cabem, em detrimento daquelas funções que são especificamente femininas e só competem à mulher.

A família patriarcal se esvai em rápida degenerescência porque não é mais possível que um grupo de Espíritos imortais, de personalidades independentes fique submetido ao despotismo de um chefe atrabiliário. A busca dos novos padrões cria modelos transitórios e aberrantes de organização familial como aquela em que prevalece a influência feminina.

Mas, progressivamente, se vão desenhando os contornos da sociedade conjugal e há de prevalecer na civilização renovada do futuro, aquela em que não haja prepotência de um cônjuge sobre o outro, porém, cooperação estreita entre marido e mulher, firmada na igualdade dos direitos e na diversidade das funções, do respeito mútuo e na complementação harmônica de duas personalidades psiquicamente íntegras, que renunciam parte de si mesmas para fundir-se num todo único com o fim primacial de educar a prole para o mundo e para a vida.

Direis que é este o casamento conforme o define a lei e os códigos, onde se regulam os direitos e deveres recíprocos dos cônjuges. Por certo é assim, mas até aqui isso não passou das abstrações filosóficas e jurídicas para a realidade da vida como comportamento básico e universal porque a contradição é cada vez mais flagrante entre a teoria e a prática.

Tem sido sempre flagrante e é hoje mais flagrante do que nunca, tanto é assim que o número de separações no Brasil, pelo menos nas grandes capitais, chega quase a igualar o número dos casamentos, parecendo a todos que o matrimônio é uma instituição em declínio.

O desquite é recurso cada vez mais frequente na solução dos desacertos matrimoniais ensejando que proliferem as uniões ilícitas, não obstante socialmente aceitas. E entraríamos aqui com breves considerações em torno do divórcio, vínculo contra o qual se insurgem alguns espíritas com puritana intransigência. Mas, entendei que são ideias pessoais, fruto do nosso raciocínio e da nossa vivência social de espírita. Nem as pronunciamos em cátedra, pois que prezamos acima de tudo a liberdade de pensamento e a convicção alheia, não nos servindo a carapuça de aspirante a papa do Espiritismo, como nos chamou maliciosamente por carta um confrade nosso que não concordara com os argumentos expendidos em uma de nossas despretensiosas palestras. Acreditamos em que nada melhor se escreveu sobre divórcio na Doutrina Espírita do que o comentário de Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, a propósito da sentença; Não separeis o que Deus juntou. O mestre de Lyon conclui que o divórcio é uma lei humana que tem por objeto separar de direito o que de fato já está separado.

Esse comentário está em harmonia com a resposta à questão 697 de O Livro dos Espíritos, onde se lê que a indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei humana muito contrária à da natureza. E, em acordo também com a resposta à questão 940, do mesmo livro, onde os Espíritos nos informam de que Deus não constrange a criatura a permanecer junto dos que a desagradam.

Em verdade, no nosso entender, os espíritas não deveríamos mobilizar campanhas contra o divórcio quando aplicado em casos extremos de incompatibilidade e em substituição a essa chaga social que é o desquite e que ninguém tem conseguido coibir. Se alguma campanha nos cumpre ativar não é contra o divórcio, porque combater um remédio jurídico mais eficaz e mais moralizador do que o desquite, embora sempre lamentável, não impede que proliferem e se multipliquem as separações de fato, e exijam uma solução legal qualquer, seja o desquite, seja o divórcio.

Se alguma campanha nos compete ativar é a favor da revalorização do casamento e da instituição da família. Isso só poderemos alcançar por via de um programa educacional eficiente, eficaz, real em nossos lares e por extensão nas Casas Espíritas, com vistas à repercussão no meio social. (...)

Há necessidade que estudemos e conheçamos a nossa Doutrina e a valorizemos pelos atos. Amai-vos, eis o primeiro mandamento, sentenciou o Espírito de Verdade; instruí-vos, aqui está o segundo.

Amemo-nos então uns aos outros, exercitando o trabalho do bem e do amor, exercitando a tolerância e a caridade dentro das nossas próprias fronteiras e daqui para toda a Humanidade, mas não nos esqueçamos igualmente do estudo. Recorramos a Kardec na meditação de todos os dias e socorramo-nos em Jesus na oração de todas as noites. Mantenhamos a unidade doutrinária pelo estudo, pela reflexão, pela meditação e mantenhamos a coesão fraterna pelo cultivo do amor no exercício do trabalho comum em favor do próximo atormentado.

Atentemos para a nossa imensa responsabilidade. (...) temos sido consolados através dos anos ouvindo mensagens magníficas que nos exortam para o bem. Já é tempo de acordarmos para a necessidade do trabalho, não apenas consolação, exercício também daquilo que temos aprendido.
Não podemos continuar frequentando os nossos Centros Espíritas como eternos recebedores. Chegou a hora de dar. Dar porque muito se pedirá a quem muito se houver dado.

Se algo nos compete suplicar a Deus é que nos conceda novas oportunidades de serviço, abençoando a nossa seara de trabalho. Peçamos a Ele que abençoe esse templo de caridade, de serviço e de estudo. Peçamos a Jesus que nos conceda firmar um compromisso, de sermos doravante, cada vez mais interessados na vida coletiva dos nossos Centros Espíritas.

Não podemos permanecer a fazer sessõezinhas particulares em nossas casas deixando os Centros Espíritas desertos. Há necessidade de nos reunirmos e estudarmos juntos.

Peçamos a Jesus que nos multiplique as oportunidades de trabalho e digamos hoje e sempre:

Mestre, abençoa os Teus servidores. Nossas mãos estão ainda vazias, mas querem ficar plenas em Tua seara. Abençoa-nos hoje e sempre concedendo-nos a graça de compreender, de amar e de crescer em cérebro e coração.

Dá-nos paz à nossa alma, alimenta-nos o coração suprindo as necessidades de segurança íntima que padecemos, mas abre-nos os olhos para o imperativo do amor.

Tu disseste: Ama teu próximo como a ti mesmo e faze aos outros o queres que te façam eles. Ajuda-nos a compreender que nessas palavras colocastes a necessidade do amor a Ti, do amor que constrói, do amor que levanta, do amor que soergue.

Não nos permitas a preguiça, não nos permitas a paralisia voluntária, mas conclama-nos hoje e sempre ao trabalho em Tua seara.

Abençoa-nos e concede-nos a Tua paz.
 

Palestra de Jacob Holzmann Netto,
proferida em Marília, SP, em 1958.
Em 27.3.2017.

© Federação Espírita do Paraná - 20/11/2014