Propaganda e divulgação espírita - Abdias Antônio de Oliveira
Quando da implantação do reino dos céus entre os homens, aqueles que se fizeram beneficiários das curas realizadas por Jesus tornaram-se naturais propagandistas da fé, exaltando as excelências do bem de que se viram objeto, entre exclamações laudatórias e narrações entusiásticas.

Suas vozes atraiam compactas multidões, que se renovavam, sempre ávidas de mais sinais e maior soma de recursos com que se beneficiassem, irrequietas e levianas...

No entanto, enquanto prosseguia a propaganda arrebatadora, em volta e a distância do Senhor, a divulgação da Boa Nova encontrava somente raros espíritos resolutos e dispostos ao engajamento nos seus dispositivos redentores.

O arrebatamento das primeiras horas dava lugar à suspeição e ao afastamento das diretrizes severas, que impunham o renascimento íntimo de cada um, embora se sucedessem as expressões de ventura e júbilo, diante das repetidas conquistas imediatas de ordem pessoal.

No dia da cruz, porém, os propagandistas afoitos se evadiram, demandando as distâncias acautelatórias e convenientes.

Mas as lições que renovaram muitos, definitivamente, graças à salutar divulgação que ele realizara no ministério da convivência pessoal e do exemplo sistemático, se encarregariam de espraiar a mensagem de vida pelas trilhas do futuro...

Ainda hoje, nas tarefas do Espiritismo — encarregado de restaurar o Cristianismo, na sua primitiva pureza -, multiplicam-se os que fazem a propaganda bombástica, aliciando interessados imediatistas nos recursos da mediunidade, de que pretendem utilizar-se nem sempre com elevação, ou que procuram aderir à Doutrina Espírita somente porque está na moda, através de apressada filiação formal e aparente, sem maiores consequências.
 
Aplaudem ruidosamente, ovacionam encomiasticamente, cercam de bajulação dourada e enganosa, intoxicam com homenagens transitórias, disfarçadas, dizendo que são benéficas para a melhor propaganda da causa, como se o Espiritismo necessitasse das exteriorizações e dos ruídos que perturbam, produzem impacto, sugestionam, mas passam com a mesma rapidez com que chegam.

Fazem-se agentes da nova fé, defensores dos seus postulados, atormentados coligidores de estatística, desejando para a Mensagem Reveladora os lugares de destaque, antes ocupados pelos antigos corretores equivocados da governança religiosa da Terra...

O divulgador, no entanto, discreto e consciente, é membro do Reino de que dá noticia, informando com segurança, esclarecendo com paciência e deixando as sementes do Evangelho plantadas, em definitivo, nas províncias da alma humana sofredora.

Suas lições trazem a técnica da vivência e da experiência da fé, em que consubstanciam os seus ensinos, a fim de impregnarem os que os ouvem, desejosos de vida nova, nas bases austeras e relevantes do reino de Deus. Não obstante propaganda e divulgação sejam, lexicamente, a mesma coisa, merece consideremos, em Espiritismo, que:

O propagandista passa. O divulgador permanece.

Aquele é agente que espera recompensa. Este é servidor que se felicita ajudando. Um tem pressa. O outro espera.

O primeiro conhece por informação de outrem. O segundo sabe por integração pessoal.

O propagandista, por qualquer insucesso, encoleriza-se, reage, sente-se decepcionado. Anseia pelos resultados expressivos e volumosos. Procura êxitos pessoais, no labor a que se propõe.

O divulgador ensina e vive, deixando ao futuro os resultados que não ambiciona colher, porque se reconhece na condição de servo inútil que apenas fez o que devia fazer, e sabe que, para alguém tornar-se espírita, isto nem sempre depende de um momentâneo ato de querer, porém faz-se indispensável tudo investir para poder sê-lo, porquanto o verdadeiro espírita é tocado no coração, pelo que inabalável se lhe torna a fé, como ensinou Allan Kardec, e, para tanto, não se fazem necessárias as aparências exteriores.

Psicografia de Divaldo Pereira Franco, em 7.3.1973,
no Centro Espírita Caminho da Redenção,
em Salvador, Bahia.

© Federação Espírita do Paraná - 20/11/2014