Aplicações do conhecimento espírita - Vianna de Carvalho
O preclaro codificador do Espiritismo, procedendo a uma análise sintética em torno da Doutrina recém-apresentada ao mundo, estabeleceu que o seu desenvolvimento para atingir a plenitude na sociedade atravessaria três períodos distintos, quais sejam: o da curiosidade, o do estudo filosófico e meditação dos postulados e ao da aplicação das suas consequências.

Superada a primeira fase, porque de efêmera duração, mais prolongada é aquela que faculta o estudo filosófico, propondo meditações e reflexões profundas, para a sua aplicação futura, consequência inevitável da incorporação dos seus postulados ao modus vivendi de cada um dos seus adeptos.

Os fenômenos espíritas retratando a realidade da vida em toda a sua complexidade, desvelam o Mundo espiritual, demonstrando a causalidade de todos os acontecimentos de maneira inequívoca, graças ao que permite a identificação dos legítimos objetivos existenciais.

Demitizando os tabus e superstições, crendices e fantasias em torno do Espírito e do seu processo de evolução, (o Espiritismo) convoca o pensamento à análise lógica em torno da finalidade da existência física e das suas ocorrências.

Dessa maneira, transforma-se no maior adversário do materialismo, cujos postulados trabalham em favor do momento que passa, anulando a possibilidade de sobrevivência do ser à decomposição orgânica. Suas bases, que não possuem qualquer suporte para sustentação em fatos que lhe demonstrem a legitimidade, ante as demonstrações do Espiritismo, soçobram, esboroando-se o edifício das suas teses, que são mais fruto de reações psicológicas às religiões ortodoxas do passado, do que propriamente contra a fé legítima, especialmente quando racional.

Em face das elucidações que oferece, o Espiritismo torna o indivíduo seguro da sua realidade eterna e, que se sentindo realmente seguro das responsabilidades que lhe dizem respeito no concerto social, rompe o claustro da pusilanimidade no qual se encarcerara e sai à luta em afanoso trabalho de incessante renovação moral e espiritual.

Por efeito, a sociedade, na qual se movimenta, experimenta a mudança que nele se opera, e desembaraça-se dos grilhões férreos das conveniências transitórias, para estabelecer o comportamento que promoverá a Humanidade ao nobre patamar da integridade social e do equilíbrio geral.

Infelizmente, em razão das estruturas arcaicas em que se firmam os valores éticos atuais, o utilitarismo e a exaltação da personalidade têm prevalência nos seus quadros de relacionamentos humanos.

Os indivíduos e os grupos assim constituídos tornam-se egoístas e laboram estimulados pelos interesses mesquinhos a que se aferram.

Frutos desse materialismo absurdo uns e do religiosismo exterior e indiferente outros, a falácia em torno do ser predomina nas suas formulações morais e nos seus objetivos essenciais, assinalando a jornada orgânica como necessidade inadiável e única para os primeiros, a caminho da plenitude gratuita para os segundos, o que defrauda profundamente a realidade da vida.

O Espiritismo, como antagonista seguro do materialismo, fere-o de morte, por comprovar a vacuidade da matéria e a sua existência, realçando a energia nas variadas expressões em que se manifesta, culminando com o Espírito, que é o ser pensante.

Diluída a ilusão do nada, que é muito difundida, a perenidade do ser exige de todos um arsenal de conhecimentos para ser entendida, ao tempo em que se penetra na finalidade existencial com o destino para onde ruma.

Da mesma forma, descartando as quimeras dos teólogos humanos sobre a fé religiosa, faz que ruam os castelos do protecionismo para suas elites e repúdios eternos para os alienígenas aos seus quadros, abrindo os amplos e infinitos rumos da Espiritualidade.

Enquanto uma e outra condutas filosóficas são resultado de elaborações humanas, de indivíduos e de grupos vinculados entre si pelos interesses a que se prendem, o Espiritismo de todas difere, por ser trabalho dos Espíritos de todas as categorias que, em diferentes partes da Terra, apresentaram-se em todos os tempos, mediante contínuas revelações e que, no século XIX, como vozes dos Céus em sinfonia incomparável, de uma vez alertaram a consciência humana e suas mensagens como estrelas caídas e produziram uma luminosidade no pensamento que jamais se apagará...

Codificadas essas lições, elaborados os seus paradigmas e confirmados os seus princípios, apresenta-se na condição de uma filosofia profunda, que se propõe a libertar as consciências emaranhadas no cipoal da ignorância, dos preconceitos, das ideias falsas, rompendo todas as amarras que ameaçam retê-las na retaguarda.

Em face dos seus fundamentos repousarem na crença em Deus, na imortalidade da alma, na Justiça Divina, nos benéficos efeitos da adoração ao Criador, mediante ações enriquecedoras, na oração e no respeito aos sentimentos humanos, em Jesus, como Modelo e Guia, inevitavelmente se expressa com caráter religioso, porém racional, de forma a reconduzir a criatura ao Genitor Excelso, graças ao desenvolvimento dos tesouros morais e de sabedoria que lhe jazem em latência.

À medida que esses conhecimentos tornam-se difundidos e venham a ser implantados nos corações e nas mentes, as consequências inegáveis serão a felicidade, a harmonia social, o desenvolvimento pleno do ser humano, a libertação dos sofrimentos que se impõem por enquanto em razão do processo evolutivo, com o qual todos se encontram comprometidos.

Dessa forma, a sociedade se tornará mais equânime e justa, os relacionamentos se farão duradouros e ricos de compensações emocionais superiores, as leis ensejarão dignidade e confiança, desaparecendo as diferenças de classes, de raça, de pensamento arbitrário, e todas as criaturas, respeitando-se, harmonizarão os sentimentos proporcionando o bem-estar geral.

Conclui-se que o período da curiosidade logo passa, em razão de, sendo atendida pelos fatos inequívocos da sobrevivência do ser à disjunção molecular pela morte, os conteúdos filosóficos tornam-se as respostas aguardadas para as interrogações perturbadoras que permanecem nas mentes ansiosas.

Logo se impõe a necessidade da aplicação desse conhecimento espírita e suas consequências se prolongarão pelo porvir, trabalhando em favor da sociedade melhor, que se há de estabelecer no planeta terrestre, começando no indivíduo que, consciente das próprias responsabilidades, assumirá a condição de verdadeiro cristão.

Esses homens e mulheres de bem formarão pequenas células saudáveis moralmente, que se transformarão em grupos felizes, moral e espiritualmente, conseguindo a meta proposta pela existência, que é a felicidade real.

Vianna de Carvalho
Psicografia de Divaldo Pereira Franco,
disponível no cap. do livro Espiritismo e vida, ed. LEAL.
Em 5.2.2026

© Federação Espírita do Paraná - 20/11/2014